Assistir a “Estado de Excepção” é conjugar o verbo no Conjuntivo do Pretérito Mais-que-Perfeito, carregado de ‘ses’ para um tempo Futuro. A apatia há-de promover a felicidade.
O espetáculo revela-se desequilibrado e frágil, descosido num sentido estrutural e sem coesão transversal. “Estado de Excepção” é uma poesia fragmentada e ensurdecedora. Conceptualmente a intenção da proposta é convidativa mas a sua experiência sensorial é cansativa e confusa.
Trata-se de um manifesto, em género de lembrete, sobre a garantia da felicidade, isto é, a obrigação de se ser feliz apesar das dificuldades e obstáculos atuais ou intemporais. Mas contraditoriamente existe, e fica a sensação de desistência e demissão do sujeito, arriscando a especulação de que o Rui Horta, nesta peça, ameaça ou anuncia insolvência. Não há regra sem exceção. Qual é a regra da exceção?
Durante sessenta minutos, aproximadamente, Não é possível ouvir mais o discurso neopolítico e contestatário do Pedro Gil, que caberia em qualquer ação militante, artística ou não.
Durante sessenta minutos, aproximadamente, Dói e não é possível ver, pela milésima vez, o Miguel Borges como cão de cena, usado mas desaproveitado , que o levará à extinção.
Durante sessenta minutos, aproximadamente, Não é fixável a presença e passagem de Anton Skrzypiciel como mestre de cerimónias, imposto e desajustado.
Durante sessenta minutos, aproximadamente, Não é possível sentir a abstração da coreografia insípida e distante interpretada por Teresa Alves da Silva, um corpo sem essência que se move na técnica.
Ao fim de, aproximadamente, sessenta minutos, Ecoa a música de David Santos, ele é a verdadeira exceção em cena, um desempenho discreto e muito generoso. Ele vive porque respira.
Em suma, neste “Estado de Excepção”, apesar de não imediata na sua perceção, esboçam-se as consequências de viver uma situação temporária de restrição de direitos e concentração de poderes que, durante sua vigência, aproxima um Estado sob regime democrático do autoritarismo. Resta saber, quantas vezes se repete um estado de exceção?, qual a sua duração?, e se a arte tem responsabilidade num lugar de compensação?
«ESTADO DE EXCEPÇÃO» | Teatro São Luiz (Lisboa) | 10 a 13 de Janeiro, 2013 | Direção Artística, Cenografia e Desenho de Luz: RUI HORTA | Interpretação: ANTON SKRZYYPICIEL, MIGUEL BORGES, PEDRO GIL e TERESA ALVES DA SILVA | Música e Interpretação (ao vivo): DAVID SANTOS (Noiserv) | Vídeo: FRANCISCO VENÂNCIO | Apoio Dramatúrgico: TIAGO RODRIGUES | Fotografia MARIANA SILVA | CoProdução: Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, São Luiz Teatro Municipal, O Espaço do Tempo e AnaPereira.PedroGil