Para começar, o titulo é logo uma publicidade enganosa. Nada bate a bota com a perdigota. [150 milhões de escravos, certo, mas não aqui.] Li algures que esta peça serve como manifesto artístico para denunciar a escravatura infantil, partindo do número redondo publicado pelas estatísticas da Amnistia Internacional. Soma-se ao titulo, uma intenção ou inquietação falhada.
O espetáculo abre com a leitura de um excerto, lido pela encenadora que se apresenta em palco de forma despojada com o livro na mão. [Não me disse nada!… se é que alguém a ouviu.]
A partir daí tudo é um disparate, teatro físico ou dança com texto, plasticamente é uma salada russa para novo rico comer. Os atores são fraco/medianos com a exceção de alguns momentos da Beatriz Godinho, Ivo Alexandre, Hélder Agapito e Teresa Sobral. Há uma tentativa de sair da zona de conforto, mas fica-se pela tertúlia com uma cuspidela para o precipício.
Abreviando, em cena, um bando de burgueses (amigos e familiares ou vizinhos) reúne-se no salão da herdade do Político mais poderoso da terra. Bebem, trocam conversa inútil e entretém-se com leituras teatrais, para ornamentar e disfarçar as suas essências negras e rotinas desestruturadas. O clímax dá-se quando se apercebem que morreram trabalhadores ilegais na herdade, entre eles uma criança.
Cenograficamente o dispositivo é desinteressante, disfuncional e feio, incoerente esteticamente. O uso do vídeo é despropositado [mesmo que justificando alguns elementos cénicos e/ou premissas de dramatúrgia], apenas ilustra a imagem gráfica de propaganda à peça.
Posto isto: [Maria João Luís quer uma Casa de Campo na cidade?]
“Errar é humano, perdoar é divino.” Em “150 Milhões de Escravos” somos cúmplices e apenas lamentamos. Não há teoria que justifique nem capicua que proteja. Tenho pena! [Não adormeci, só me aborreci.]
«150 MILHÕES DE ESCRAVOS» | Teatro da Trindade (Lisboa) | 11 a 28 de Janeiro, 2018 | Encenação: MARIA JOÃO LUÍS | a Partir de: Em Homenagem aos nossos empregados de Mickael de Oliveira, A Gaivota de Anton Tchékhov e Esteiros de Soeiro Pereira Gomes | Interpretação: BEATRIZ GODINHO, CATARINA ROLO SALGUEIRO, EMANUEL ARADA, HÉLDER AGAPITO, IVO ALEXANDRE, JOÃO SABOGA, JOSÉ LEITE, LÍGIA SOARES, RUI GORDA, TERESA SOBRAL e RUI GORDA IAKOV | Cenografia: ÂNGELA ROCHA | Vídeo: INÊS OLIVEIRA | Movimento: PAULO CARETO | Desenho de Luz: PEDRO DOMINGOS | Sonoplastia: JOSÉ PEIXOTO | Direção de Produção e Fotogafia: PEDRO DOMINGOS | Co-Produção: Teatro da Trindade INATEL e Teatro da Terra