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Ó Horváth!, tanto casal mítico de comédias românticas de enganos, reais ou ficcionados.  Porquê Casimiro e Carolina? _ talvez porque eles não são figuras centrais mas sim elementos/cenas que organizam a peça, uma espécie de álibi, processo de um movimento interior para desvendar verdades feias (as suas e/ou  as dos outros).

Há arraial na cidade, não interessa o local geográfico, mas sim que se festeje a cerveja. Sendo em Lisboa, claramente a Noite de Santo António [sem sardinhas], música pimba, cerveja em abundância, mau gosto estridente nas fatiotas, adereços reluzentes, gelados e outras doçarias, desenham a típica ambiência de uma festa popular no palco do D.Maria II. Este é o cenário do desencontro entre o jovem casal [que casar, quiçá queria].

Prosseguindo no impacto imagético do ambiente festivo, ninguém fica indiferente à Luz. A belíssima iluminação assinada por Daniel Worm D’Assumpção poderia ser o elemento que dita as opções dramatúrgicas desta encenação de Tónan Quito. Há em simultâneo algo de extraordinário e de certeiro no desenho de luz que sobressai neste arraial sem bailarico.

Por falar em dançar, não se entende este arraial onde se bebe mais do que se dança. [E bebem realmente cerveja?_ Dúvida com que fiquei. Se efetivamente bebem acho que deviam beber mais, sem controle, porque «À verdade do nosso mau tempo só chegamos com os silêncios entre os personagens.»]

«Horváth (…) constata que as suas peças são mal representadas. E aponta dois vícios: o naturalismo e a sátira.» Da qual esta encenação não é exceção, representa-se um texto realista com uma forte crítica/tacada social, mas nada acontece, apenas propostas desviadas por constante bebedeira. À noite e desinibidos todos os gatos são só felinos. Revelam-se sem contingências.

A opção é pelo over acting histérico ou  reservado, na medida do Oito-Oitenta. Os atores ora gritam ora rezam, mas não está assim tanta confusão [antes tivessem contratado, à Valente, figuração]. Os atores parecem tolos à solta, clima quase naïf mas fruto de uma direção racional e desajustada (na iminência do ajuste). As interpretações são desequilibradas, o nosso casal romântico é fraco-mediano [e corro risco de ser injusta por força de uma confusão de opções do senhor Tónan.]

Entre o elenco mais maduro, destaco [para mim a surpresa] o trabalho do ator Pedro Gil. É bonito vê-lo interpretar fora de pé, existe numa performance de contenção com várias texturas e velocidades de forma indescritível e irrepreensível, vejo despojamento e sinceridade nas três personagens que ele é neste “Casimiro e Carolina”.

Nada mais a declarar sobre este objeto. [minto] Se calhar não deveria ser num palco. Se calhar não deveria ser teatro e sim cinema. Se calhar não deveriam só cantar e sim também dançar. Se calhar o encenador não deveria atuar e dirigir mas sim ocupar o seu lugar.

[Perdi o fio à miada como espectador duas vezes, primeiro a observar e depois a conjeturar: _Ai, que vergonha!]

 

«CASIMIRO E CAROLINA» | TNDM II (Lisboa) | 12 a 29 de Abril, 2018 | Texto ÖDÖN VON HORVÁTH | Direção TÓNAN QUITO | Tradução MARIA ADÉLIA SILVA MELO | Aconselhamento Artístico PATRÍCIA COSTA | Interpretação DIANA NARCISO, ELIZABETE FRANCISCA, JOANA BÁRCIA, MIGUEL MOREIRA, ÓSCAR SILVA, PEDRO GIL, RITA DELGADO, RITA ROCHA SILVA e TÓNAN QUITO | Cenografia F. RIBEIRO | Figurinos JOSÉ ANTÓNIO TENENTE | Desenho de Luz DANIEL WORM D’ASSUMPÇÃO | Música PEDRO COSTA | Fotografia FILIPE FERREIRA | Assistência de Produção OTELO LAPA | Produção HomemBala | Co-Produção TNDM II, Teatro Municipal do Porto e Centro Cultural Vila Flor