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Christiane Jatahy foi a Artista na Cidade de Lisboa em 2018 [ano civil quase quase a findar]. Não sendo assunto sobre o que interessa redigir neste artigo, avanço que envolta deste facto, emerge uma odisseia de ideias e incógnitas, sobre quais são os critérios de seleção para se ser “Artista na Cidade”. Apresentar altruistamente o seu portfolio artístico, em modo retrospetiva, tendo ou não qualquer relação com a cidade? Ser livre de optar por fazer ou não uma criação para e com a cidade, envolvendo a sua comunidade artística e/ou não artística? [assim de repente era legal saber.]

Em finais de Maio, no Teatro S.Luiz, apresenta “Ítaca”, cujo o dispositivo cénico é poético – uma proposta apenas esteticamente e plasticamente interessante. [Cortava o texto e o vídeo, deixava apenas o bailado, sem ilustrações  verbais, sem acessórios supérfluos.]

Na sequência da receita Jatahy, em cena novamente a fusão das disciplinas de teatro e cinema, como só Christiane manobra para criar um espetáculo que pode ser apreciado de várias perspetivas, onde o público se divide pelo mar de “Ítaca”, lugar onde também se encontra [enquanto come amendoins].

Bonitas imagens, brilhantes interpretações (nomeadamente na verdade estonteante das  atrizes Isabel Teixeira, Julia Bernat). Nesta viagem nem Penélope nem Ulisses chegam a lugar algum – a impotência de nada poder fazer, nada poder mudar. Resta-nos desabafar,  manifestar, gritar, espernear, dançar, chorar, afogar, cantar, amar, cair, lutar, resistir…. talvez deixar passar.

Antes de “Ítaca” Jatahy apresentou no TNDMII uma trilogia inspirada por textos de Strindberg, Tchekhov e Shakespeare, onde os revisitou de forma política e social transpondo as personagens e suas problemáticas para novelas modernas que são notícia constante nos meios de comunicação mundial.

“Júlia” é a menina patricinha que se diverte num jogo provocatório com o seu criado negro em plena ambiência da fazenda. Nem Strindberg imaginaria que a sua Menina Júlia pudesse  dar um belo produto de ficção para o canal Globo. Nesta Júlia tudo acontece live, gravam-se as cenas desta trama na velocidade em que se faz televisão mas com a temperatura do palco, e nos entretantos, a realidade extravasa as portas da sala do teatro (com as cameras sempre a captar). Realidade e ficção misturam-se. Jatahy e o seu team revelam-se genialmente eficazes [Christiane devias pensar em realizar novelas. A ficção ganharia outro posicionamento.]

“E se elas fossem para Moscou?” já tinha estado anteriormente em Lisboa programado pelo Alkantara Festival, em 2016. Vi apenas desta vez [para mim uma das melhores peças que assisti]. Uma experiência singular e perturbadora de teatro e cinema assente no universo imagético do Tchekhov. Três irmãs celebram, recordam, choram, riem, tentam, desistem, desesperam, respiram e continuam. Tudo é verdade, comove e envolve todos os presentes. O espetáculo que acontece duas vezes praticamente seguidas [mas não se repete], está divido em dois lados: o do teatro (a ser filmado) e o do cinema (a edição do conteúdo live filmado). O público é dividido pelos dois lados e no intervalo troca.  Há coisas que não se descrevem, para as quais não há palavras, porque têm de ser vividas, de forma pessoal e intransmissível, mesmo que se partilhem.

“A Floresta que anda!”, o último da trilogia, evoca Macbeth. Não percebi, não gostei. Não se entende. Saí irritada, com um sentimento de ter ido ao engano [por força da expectativa construída na sequência das peças anteriores]. Um objeto performático que podia existir numa galeria de arte (4 projeções vídeo – com documentários de pessoas classe baixa e/ou marginal do Brasil; 1 bar; 1 barman; 1 bebida por espectador; 1 atriz; vários elementos do público com auricular – voluntários para interagir). Usei o auricular, contudo optei só ouvir as indicações da Jatahy e não participar, apenas observar [voyeur]. Enquanto as pessoas circulavam com os copos na mão entre as projeções [será que as viam ou esperavam ver algo?], momentos de teatro aconteciam numa invisibilidade parcial. Imerso de estranheza e suspeita. Tudo a ser criteriosamente captado por uma régie que se escondia atrás do espelho do bar [qual big brother.] No fim é exibido o resultado daquele engodo (cenário, narrativa, atriz principal e seus secundários, mais figuração) – o filme com assinatura Jatahy & Team. Quis arriscar o formato mas não abdicou do seu truque. Quis ser europeia contemporânea mas é sul americana. Quis sustentar de forma política mas soou a burguês.

No fim de todas as peças Jatahy deixa sempre esta interrogação: _o que é que podemos realmente fazer para mudar? [a sério?!] Ninguém muda, nada muda, a mudança não existe [já devias ter idade para saber isso]. A transformação sim, acontece lentamente, de forma quase impercetível, pelo processo de maturação, porque a essência, essa não muda.

Essa maturo/transformação demora a vida toda, multiplicada pelo número total da população mundial (que se ajusta todos os dias). Maturar é igual a Continuar. Arriscar com honestidade sem querer ser o que não somos.

 

«ÍTACA – NOSSA ODISSEIA I» | Teatro São Luiz (Lisboa) | 7 a 9 de Junho, 2018 | Direção, Dramaturgia e Cenário CHRISTIANE JATAHY | a Partir de HOMERO | Interpretação CÉDRIC EECKOUT, ISABEL TEIXEIRA, JULIA BERNAT, KARIM BEL KACEM, MATTHIEU SAMPEUR e STELLA RABELLO | Colaboração Artística THOMAS WALGRAVE | Assistência Cenografia MARCELO LIPIANI | Som ALEX FOSTIER | Diretor de Fotografia/Imagem PAULO CAMACHO | Assistência MARCUS BORJA | Figurinos SIEGRID PETIT-IMBERT e GÉRALDINE INGREMEAU | Sistema de Vídeo JULIO PARENTE | Fotografia ELISABETH CARECCHIO | Tour Manager e Produtor: Cia Henrique Mariano | Produção ODÉON-THÉÂTRE DE L’EUROPE | Co-Produção: Théâtre National Wallonie-Bruxelas, Teatro São Luiz – Lisboa, Centre Cultural Onassis – Atenas