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O Teatro Meia Volta – e Depois à Esquerda Quando Eu Disser – com quinze anos de existência, decidiu abrir as portas de casa para festejar, com o público, mas de forma particular, dado que acontece para lá do entendimento superficial do que é celebrar.

Em Joyeux Anniversaire chega-se, em boa verdade, para se testemunhar o rescaldo de uma festa, sob uma perspetiva íntima e sussurrada dos cinco intérpretes que, em diferentes assoalhadas da casa – excluindo-se as divisões do salão e da casa-de-banho, na Casa Capitão –, se desnudam generosamente aos olhos dos presentes, e trajados a preceito, em looks e ambiências monocromáticas: a vermelho (Anabela Almeida), a branco (Alfredo Martins), a lilás (Luís Godinho), a amarelo (Cláudia Gaiolas) e a azul (Sara Duarte) – uma opção estética que confere sofisticação e simbologia a esta obra habitada.

A coleção de fotografias – que registaram o evento –, os restos de um bolo de aniversário, as garrafas vazias, os copos e enfeites derrubados, o silêncio musical… são alguns exemplos que nos dão pistas de um festejo terminado ou interrompido. Logo, este Joyeux Anniversaire propõem-nos, acima de tudo, uma reflexão, porque se revela mais como festa interior. O dia em que é suposto termos um “feliz” aniversário, e que assinala a passagem do tempo, apresenta-se como um ótimo marco anual para a introspeção e o balanço.

Esta proposta teatral confronta-nos com uma espécie de desabafo pessoal, indizível e intransmissível, sobre o real impacto e o que representa aniversariar. André Tecedeiro foi o autor desafiado a escrever, para, e com os intérpretes, textos que verbalizassem esses pensamentos inexprimíveis e que adensassem a ambiguidade do ato cerimonial.

O «aniversário» é universalmente reconhecido por ser a data que lembra o nosso nascimento/ aparecimento social – mas não exatamente o primeiro momento de vida, aquando a conceção biológica –, é um dia de festejo mas também oportunidade para reparar que, à medida que, se somam os anos, se subtraem as presenças e se brindam às ausências.

Fatidicamente, esta data começa por ser festa de celebração da vida que está por vir mas, e amiúde, torna-se na recordação do que já se viveu. Desde que nascemos passamos a envelhecer, “fazer anos” é claramente afirmar que envelhecemos, ideia eximiamente narrada no poema «Aniversário» de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa): «No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. (…) Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.»

Desta vivência única, proporcionada pelo espetáculo, fica, ainda, a sugestão de que festejar, designadamente, o aniversário, contém em si um certo grau de teatralidade.

Assim sendo, tecer demais considerações críticas, quer de forma ou de pertinência, sobre Joyeux Anniversaire torna-se uma tarefa difícil e ingrata, uma vez que a peça representa um género artístico em extinção por, sem necessidade de se politizar, se assumir bela, sensível, inteligente e honesta, ao acolher um tema tão trivial mas comummente Humano.

 

«JOYEUX ANNIVERSAIRE», de 09 a 20 Novembro 2021, na CASA CAPITÃO | Criação e Interpretação ALFREDO MARTINS, ANABELA ALMEIDA, CLÁUDIA GAIOLAS, LUÍS GODINHO e SARA DUARTE | Texto ANDRÉ TECEDEIRO | Cenografia CARLA MARTINEZ | Assistência de Cenografia ISABELLE IVONE DEKIEN | Figurinos AINHOA VIDAL | Iluminação DANIEL WORM D’ASSUMPÇÃO | Assistência de Iluminação PEDRO NABAIS | Som PEDRO GONÇALVES | Produção Executiva CLÁUDIA TEIXEIRA | Produção TEATRO MEIA VOLTA e Depois à Esquerda Quando Eu Disser | Fotografia JOÃO TUNA