“A Paixão Segundo Eurico” é um belo exemplar teatral de um possível exercício dramatúrgico de escola, uma ávida proposta que se fica pela desfragmentação notoriamente caótica. O “Frei Luís” do Herculano volatilizou-se na confusão.
«(…) o próprio Eurico, se bem compreendido, também não existe, aquela parte de si mesmo que se transforma no Cavaleiro Negro apenas ocupa a cena como uma máscara que oculta o guerreiro que não tem sequer direito ao próprio nome.»
A peça é tomada de facto pela paixão, numa atitude febril de delírio simbólico e intelectualizado. O palco dispõe de uma meticulosa arrumação cenográfica para criteriosamente se desarrumar e sujar a imagem carregada de símbolos. Objetos que são uma espécie de nós físicos da relação invisível entre o texto, o intérprete e o espetador, que vai determinar o insucesso inevitável de comunicação no fim.
Três mulheres [Cristina Carvalhal, Inês Rosado, Sara Carinhas] num veste despe de palavras e ações, desenrolam coreografias imperfeitas e pretensiosas dentro de uma camisa de forças. A paixão lê-se clara pela presença do crucifixo, dos crucifixos verticais e imóveis. O sujeito da paixão rendido, entrega-se à fé, a religião, algo para voltar a acreditar ou ser credível.
Quantas são as vezes em que esbracejamos, nos debatemos visceralmente por tal verdade e vontade que batemos com o nariz no chão. Só a nós mesmos magoamos. Cai Eurico. Cai Hermengarda. Cega de tanta paixão, morre.
“A Paixão Segundo Eurico” representa e sublinha a destruição convulsiva dos sentidos, porque a guerra é inevitável.
«A PAIXÃO SEGUNDO EURICO» | TNDM II (Lisboa) | 1 Dezembro 2011 a 29 Janeiro 2012 | a partir de: ALEXANDRE HERCULANO | Coordenação: CRISTINA CARVALHAL | Dramaturgia e Interpretação: CRISTINA CARVALHAL, INÊS ROSADO e SARA CARINHAS | Desenho de Luz: JOSÉ ALVARO CORREIA | Cenografia e Figurinos: ANA VAZ | Coordenação Texto: GRAÇA P.CORRÊA | Produção Executiva: MAFALDA GOUVEIA | Fotografia PEDRO FILIPE MARQUES | CoProdução: TNDM II e Causas Comuns