Revelar (ou meio revelar) é homenagear?
Em “Sopro” de Tiago Rodrigues há uma premissa motora muito especial, verdadeira e comovedora de simples que é. Colocar como protagonista e interprete desta peça e narrativa uma figura invisível, o Ponto (carreira já em extinção ou desuso). Neste caso a Ponto Cristina Vidal, no feminino. Contudo, a intenção não se concretiza de raiz. Cristina Vidal não quer estar em palco a representar a sua representação [o lugar do Ponto é na invisibilidade, a sua demanda não é na luz]. Ela não quer aparecer, mas meio que aparece e está em cena do início ao fim do espetáculo, a contra gosto ou na resolução possível de se cumprir o preito (o que soa a piedade teimosa).
A opção de não largar uma ideia dá nisto – ventania dramatúrgica sem assentar ou acertar no cata-vento. Podia só durar dezoito minutos e trinta e três segundos [o tempo do primeiro café que Tiago tomou com Cristina ou o tempo que ela demora a debitar a coletânea de deixas teatrais/ lapsos dos atores ao longo de 25 anos], só que não. A ilustre não se manifesta por inteiro, como expetado, mas sim escudada e dobrada por 5 atores [Beatriz Brás, Isabel Abreu, João Pedro Vaz, Sofia Dias e Vítor Roriz] a quem sussurra o texto que eles sabem de cor, certamente, o que é ridículo ou incoerente no mínimo.
Pelo meio desta ventosa honra acontecem ainda os momentos do teatro, à la repertorĭu, e nas entrelinhas sente-se tenuemente o retrato da instituição e hierarquia pública-social, a entidade estatal, que reagia, rege e regerá a cultura.
Perder pode ser Ganhar. [ouso a retórica] Faria sentido a Cristina Vidal existir só como sendo voz dos atores [corpo], uma única voz, a sua, a fim de não ser previsível nem pequena ou modesta a sua presença/sombra. Apenas no remate, sim, seria lógico a Ponto realmente surgir para finalizar a frase de Berenice (a que ficou incompleta, calada, pelo último suspiro da atriz que faleceu). Quando interrogada se em alguma ocasião estaria em cena a resposta é determinada: somente para terminar essa frase suspensa no passado.
“Sopro” estreou-se no Festival de Avignon, no verão, desde então tem sido referenciado e aplaudido de pé repetidamente. Porquê? Contra tudo e todos [onde me incluo] é declarado que há um fundo de humanidade que define este êxito unânime, Ponto. O respeito e carinho por Cristina Vidal, pela sua história cheia de mais histórias que são também o nosso teatro. A ovação é irrefutável mesmo na imperceptibilidade da brisa.
Virar do avesso algo ou alguém revela as suas costuras, o lado menos perfeito também tem os seus encantos.
«SOPRO» | TNDM II (Lisboa) | 2 a 19 de Novembro, 2017 | Texto e Encenação: TIAGO RODRIGUES | Interpretação: BEATRIZ BRÁS, CRISTINA VIDAL, ISABEL ABREU, JOÃO PEDRO VAZ, SOFIA DIAS e VÍTOR RORIZ | Cenografia e Desenho de Luz: THOMAS WALGRAVE | Figurinos: ALDINA JESUS | Sonoplastia: PEDRO COSTA | Assistência de Encenação: CATARINA RÔLO SALGUEIRO | Assistência Técnica: MARCO FONSECA e NUNO FIGUEIRA | Fotografia FILIPE FERREIRA | Produção: TNDM II