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No início de Setembro (2022), a impressão de uma imagem digital gerada por um programa de Inteligência Artificial – via Midjourney –, desencadeou uma polémica nas redes sociais,  que correu a imprensa internacional, digna de uma ópera ligeira contemporânea. Théâtre D’opéra Spatial, assim se chama a desditosa imagem, da co-autoria e propriedade de Jason M. Allen – cidadão americano, formado em Ciência da Computação e fundador da empresa de videojogos Incornate Games Inc. –, venceu o galardão do primeiro lugar, na categoria “artes digitais/fotografia manipulada digitalmente”, da Colorado State Fair’s Annual Art Competition.

Como é que uma imagem, cuja dimensão de impressão se aproxima de um A3 (297x420mm), que aparenta ser uma belíssima pintura clássica mas que é realizada através de uma ferramenta digital, pode causar tanta celeuma? Os artistas e os puristas – do meio artístico, e não só – ergueram-se de imediato para contestar a validade da “obra” de Allen, uma vez que esta poderia atentar o princípio e o entendimento autêntico de Arte, logo extinguir e deturpar o papel do Artista.

Pragmaticamente, e antes de mais, compreenda-se que a Inteligência Artificial é um instrumento-técnica digital, como qualquer outro utensílio-prática não digital – como sejam os pincéis, as espátulas ou as máquinas fotográficas –, igualmente fruto da Tecnologia criada e aperfeiçoada pela ação Humana para servir as suas necessidades. Por ora, só Homem desenvolve e opera os seus engenhos, neste caso específico, para esta composição visual ser produzida pelo Midjourney, o utilizador (Allen) teve de digitar um conjunto de palavras-chave, que acionou e determinou o software na produção da imagem. Por conseguinte, Théâtre D’opéra Spatial resulta de um processo de interação entre Homem-Máquina, no que a discussão sobre Autoria é redundante, dado que tudo só existe em relação, num sistema colaborativo, devendo-se pois enunciar Co‑Autoria e definir os direitos de Propriedade.

Depois, alegar a desumanização do ato-objeto artístico não será exagerado e um contrassenso? Em que momento da narrativa – idealização, concepção e apresentação – de Théâtre D’opéra Spatial se exclui a participação Humana? Quanto muito poder-se-á refletir sobre a ideia de Relevância, qual o valor intelectual-artístico da “obra”, sendo que, e em rápida análise, estamos perante algo que se cinge ao campo do supérfluo, do belo-espetacular, onde não há a urgência e a verdade no ímpeto artístico de pensar-comunicar um assunto. Qual seria a real intenção de Jason ao conceber Théâtre D’opéra Spatial, anteriormente ao seu ingresso e sucesso na feira do Colorado?

No exercício contínuo de observar esta imagem, a fim de, com parrésia, dissertar sobre a sua pertinência na controvérsia que levantou, a dita (imagem) esgota-se na aparência da sua primeira boa impressão – Uau!, que bonito! –, expressão-reação consensual que causa, de imediato, ao observador. Concluindo que, não havendo motivo concreto para se lhe dedicar demorada atenção, Théâtre D’opéra Spatial seria somente mais uma das 30-60 imagens que o olho humano pode apreender por segundo. Portanto, Théâtre D’opéra Spatial não passa de uma bela mas frívola imagem, como tantas outras imagens, com que somos bombardeados nas social media, superficiais e desprovidas de intenção sensível e inteligível, mesmo quando chamam a nossa atenção.

Como tal, tanto alarido criado envolta do feito de Jason M. Allen é disparatado, contudo revelador e sintomático da Sociedade atual, na sua maioria composta por gente alienada, insegura e desinformada, com um contributo social de qualidade medíocre. Decerto, alguém que esteja com afinco, de forma inteiramente implicada no seu ofício não terá razão para se sentir ameaçado e viralizar um não-assunto. A problemática do avanço tecnológico, nomeadamente das ferramentas digitais, está no uso (abuso) que o Ser Humano faz delas, tanto na Arte, como noutros sectores da Sociedade, ou seja, é uma questão de Ética, e como proferiu Allen, em entrevista ao The New York Times: “The ethics isn’t in the technology. It’s in the people.”

 

[image: “THÉÂTRE D’OPÉRA SPATIAL” by Jason M.Allen – via MIDJOURNEY]