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«Não há volta a dar-lhe, temos de viver.» _ diz Sónia ao tio. Assim se vai suspendendo, porque nunca termina, a peça *Diádia Vânia. Anton escreveu numa velocidade hiper-real a intemporalidade do quotidiano, as relações, episódios que vivemos apesar do tempo.

Será a mudança uma falácia no que diz respeito à Humanidade?,… as pessoas não mudam, maturam.

“Vânia” é a proposta de Isabel Medina e da sua equipa sobre a obra* de Tchékhov, que merece a nossa atenção. O Tio Vânia é um título incontornável do reportório teatral, texto que é muito bem concretizado e revisitado nesta encenação. O espetáculo revela elegância nas opções estéticas (cenografia, figurinos, luz e som) aliado de uma dramatúrgia cristalina que torna a história percetível.

Um elenco equilibrado dá corpo a “Vânia”, pena é inibirem pontualmente a tensão, conferindo uma energia plana à representação. Destacam-se as desarmantes interpretações de São José Correia e João Lagarto, pelo detalhe nas entrelinhas.

Em cena acompanha-se a crónica de uma explosão contida. Vânia e Sónia vivem na sombra, são engraçados mas não caiem em graça. Um dia não aguentam, acontece a catarse mas algo ou alguém a controla e silencia, quem caem em graça passa e tudo disfarça.

Assistimos a um retrato autêntico do meio social do qual fazemos parte, uma sociedade corrompida pela languidez dos que tudo aparentam, mas nada fazem, porque o invisível existirá sempre, “os outros” na derradeira ação. É triste e entediante perceber que no fim, mesmo após a reflexão, continuamos a aplaudir de pé, perpetuando esta repetição.

«Os que viverem cem, duzentos anos depois de nós vão desprezar-nos por termos vivido as nossas vidas de maneira tão estúpida e ordinária – e esses, se calhar, já terão encontrado o método para ser felizes; mas nós… Tu e eu temos apenas uma esperança.» _ Ástrov

 

«VÂNIA» | Teatro da Trindade (Lisboa) | 10 Maio a 10 Junho, 2012 | Texto de: ANTON TCHEKHOV | Adaptação e Encenação: ISABEL MEDINA | Assistência de Encenação: MARTA LAPA | Interpretação: ELISA LISBOA, JOÃO LAGARTO, JOSÉ WALLENSTEIN, LUCINDA LOUREIRO, PEDRO LIMA, SÃO JOSÉ CORREIA, TERESA TAVARES e WAGNER BORGES | Cenografia: STEPHANE ALBERTO | Figurinos: HELENA ISABEL | Desenho de Luz: PAULO SABINO | Sonoplastia: ADRIANO FILIPE | Fotografia MARGARIDA DIAS | CoProdução: Escola de Mulheres, Fundação INATEL e Teatro da Trindade