Há coisas que dá vergonha, depois de dar a volta à barriga (sem precisar de colocar os dedos à boca), por exemplo e nomeadamente este estado duvidoso da arte, vazio simultaneamente cheio de sintomas tais como tripe-febril-sensionalista-lagartixa que confirmam a patologia. “Dança Doente” é o fim de mundo em collants (sem cuecas) que se acredita salvadora e reveladora de um corpo frágil a debater-se pela vida, mas é apenas a simulação ridícula do mundano.
Todos em palco, bailarinos e restante equipa são intérpretes de um ritual descompassado, que faz lembrar as improvisações coletivas num exercício escolar de nível aberto. Inocente? Doente, a presença do autor/coreógrafo/criador em cena é estranha, quase antropofágica.
Doente é evocar o Butoh de Tatsumi Hijikata (ou vice-versa) para sustentar a estética de movimento perturbado ou a falta de destreza física e qualidade balética do quórum. Acredito na dança que se sente não numa qualquer variante que se move por conceitos metaminimalistas, correntes filosóficas ou meras intelectualidades, com ou sem demanda política.
Doente também é o momento coreográfico tosco de sexo homossexual, simulacro de ato íntimo sem sentimento. Quebrar-se-ia o tabu se o espetador se sentisse cúmplice de um coito real, ao vivo?, gratuito mas defendido pelo pretexto nobre que é a arte.
A arte nesta “Dança Doente” emerge claramente como gesto reacionário sobre o estado de coma mundial e colapso social só que se concretiza pela representação ilustrada do Corpo em crise pouco dignificante. É este o lugar e ação da arte/cultura na sociedade atual fútil a alta velocidade, sem Norte (toda a Sul a bronzear)? Tornar presente o Presente sob alienação reforçando a ideia feia.
Falta ser dança. Falta respirar. Falta comunicar. Falta ser simples. Falta verdade. Falta ser frágil. Falta Corpo. Falta a beleza. Falta inspirar. (Faltam outras faltas.) Falta apenas existir… Faltam as cuecas mas butô uns collants para disfarçar as imperfeições.
«DANÇA DOENTE» | Teatro Maria Matos (Lisboa) | 29 a 30 de Setembro, 2017 | Conceito e Coreografia: MARCELO EVELIN | Criação e Interpretação: ANDREZ LEAN GHIZZE, BRUNO MORENO, CAROLINA MENDONÇA, FABIEN MARCIL, HITOMI NAGASU, MARCELO EVELIN, MÁRCIO NONATO, ROSÂNGELA SULIDADE e SHO TAKIGUCHI | Dramaturgia: CAROLINA MENDONÇA | Colaboração Artística: LOES VAN DER PLIGT | Luz: THOMAS WALGRAVE | Som: SHO TAKIGUCHI | Direção Técnica: LUANA GOUVEIA | Figurinos: JULIO BARGA | Pesquisa: CHRISTINE GREINER | Fotografia MAURÍCIO POKEMON | Direção de Produção: Materiais Diversos, Regina Veloso/ DEMOLITION INCORPORADA