«O Centro do Mundo» é o lugar (in)desejável onde a dupla Ana Borralho & João Galante coloca cada espectador (participante) para se confrontar com a sua condição – atual axioma. A obra (performance-instalação) que procede a «Chatroom» (2023) rege-se, igualmente, por questões prementes sobre o fenómeno da digitalização social, expõe a virtualização da humanidade e das relações humanas, assim como antecipa as suas consequências, firmando-se como metaparadigma.
Fiel à sua assinatura formal, a dupla, nas peças-dispositivo que produz, teima em convocar-provocar o encontro, entre Objeto e Observador, quase sempre, a uma distância íntima. Encontro esse que, por vezes, implica a interação, uma participação ativa do público. «O Centro do Mundo» cumpre-se, exatamente, como objeto artístico porque cada elemento da audiência é, também, a personagem principal da performance a que assiste.
O derradeiro mise-en-scène de «O Centro do Mundo» inicia-se no percurso do foyer até ao palco, onde está montada uma instalação pulsante de som e de luz, com cadeiras, estrategicamente, dispostas pelo espaço – a plateia que se transforma na cena de representação. À medida que as pessoas chegam, uma equipa técnica especializada, de forma individual, recebe, senta e auxilia com a tecnologia – os óculos de Realidade Virtual (RV) –, a fim de se consumar a fruição na proposta. Este momento funciona como prólogo que [nos] anuncia uma viagem fatídica: Existir numa projeção.
Esta experiência virtual – bidimensional, ausente de profundidade do Ser, humano e imperfeito –, que aliás já é prática diária de qualquer pessoa, retrata, sem depreciação, o novo modo de nos relacionarmos e a [nossa] existência na busca incessante pelo lugar de pertença, confronta-nos com a incorporalidade da projeção: a Imagem, como aparência de quem somos ou do que queremos ser.
Durante todo o mergulho, através dos óculos de RV, as personagens da trama surgem, espontaneamente, numa amplitude de 360°, movendo-se à volta de quem as observa e que desconhece estar a ser o centro do mundo. Essas entidades-personagens, que apelam à pessoa que as vê-ouve, parecem figurar os arquétipos da Sociedade vigente, digitalizada e orientada para a aparência. São personagens-imagens que auguram ser humanas, dada a falha da sua projeção, e apesar de emanarem cor e extravagância, carregam deceção, desesperança, desorientação… São figuras perturbadas e perturbadoras mas, simultaneamente, sedutoras – porque cativam a [nossa] atenção –, arrastam-se como zombies que vagueiam no incerto, exprimindo os seus-nossos tormentos.
Imergir no centro do mundo é protagonizar um mergulho interno, pessoal e intransmissível, em jeito de autoanálise. Representa e situa a Humanidade perante a virtualidade da Vida, das relações, o desejo pela Imagem (perfeição). As personagens da peça demonstram, per se, a hipótese do nefasto na idealização fabricada pela e para a Imagem, plana e carente de terceira dimensão, que dispensa o corpóreo. «(…) a Imagem será assim um corpo para essa impossibilidade – impossibilidade de ter corpo. A Imagem está presente mas não é real, quando muito dirige-se ao real como sedução (Platão). Contudo, através dela tudo se torna real.»1
A evidência de ser o centro do mundo, nesta peça, acontece na fronteira entre dois universos distintos que se reconhecem: Realidade versus Ficção do Self. Uma vez que, é-se corpo e projeção, a presença corpórea coabita as imagens-projeções incorpóreas, logo, coexiste e, por vezes, dilui-se nelas. Ficar refém da imagem resulta no alheamento do si-próprio no encalce do si-mesmo, um corpo-projeção desligado do mundo, isolado num não-lugar isento de espacialidade e temporalidade. As personagens operam como alerta, são a hipérbole daquilo que se entende por Realidade, o reflexo de como a sociedade se projeta, movimento que tende a adensar. Desqualificada [a humanidade] perde competências e pode encaminhar-se para o vazio, um infinito buraco negro.
Hoje, a realidade parece ser somente paisagem para a alienação do sujeito conectado a um universo paralelo. Poderá a humanidade correr o risco de se aprisionar, sucumbindo à virtualidade, na tentativa de se libertar-encontrar? Volvidos, aproximadamente, 50 minutos, a narrativa de «O Centro do Mundo» suspende-se sem dar respostas nem quaisquer pistas do seu final. Permanece o ambiente instalado, cujo som, em crescente, reverbera no Corpo sentado. É-se deixado à sua própria sorte para redigir o epílogo.
Livre dos óculos de RV, cada Corpo recupera o seu rosto-olhar. Segue-se o tempo para a digestão de tão singular vivência, ainda, no dispositivo cénico, entretanto, lotado de um nevoeiro que turva os sentidos. Tanto as cores como as vozes das personagens, do vídeo, contaminam o espaço exterior, vibram na luz e murmuram no som, que ganha volume. Esta atmosfera reforça a ideia de que se foi o centro do mundo, lado-a-lado com outras pessoas – mais ou menos desconhecidas –, mas em privação de estabelecerem relação. Assoma, nessora, a constatação de que vivemos imersos numa solidão acompanhada.
«O CENTRO DO MUNDO», de 22 a 25 Outubro 2024, no TEATRO DO BAIRRO ALTO (Lisboa) estreia absoluta | Conceito, Direção artística e Câmara de vídeo ANA BORRALHO & JOÃO GALANTE | Performers ANA FREITAS, GUSTAVO SUMPTA, INÊS CÓIAS, JOANA BERNARDO, MARIA ANTUNES e MARCO MENDONÇA | Figuração JOANA MÁRIO, VICTÓRIA GOMES MOLDER, ÓSCAR (cão) | Desenho de Luz JOANA MÁRIO | Banda sonora, Gravações e Desenho de som COOLGATE | Texto, a partir do TIKTOK | Apoio Dramatúrgico FERNANDO J. RIBEIRO | Edição vídeo 360 MICAEL ESPINHA | Efeitos especiais RV DAVID GABRIEL | Masterização Som PEDRO AUGUSTO | Casting e Guarda-roupa ALMA MAR | Maquilhagem SARA MARQUES DE OLIVEIRA | Assistência Artística DANIEL MATOS | Produção casaBranca – Associação Cultural | Direção de Produção e Difusão CLARA SAMPAIO e ANDREA SOZZI | Produção Executiva RITA CONDE | Direção Executiva e Administrativa MÓNICA SAMÕES | Comunicação this is ground control | Web design JOSÉ PELICANO | Coprodução Teatro do Bairro Alto, Cineteatro Louletano, Teatro Viriato | Fotos LEONOR FONSECA
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1 VIDAL, Carlos; Jorge Pinheiro – A Quietude das Imagens Perdidas; p.17; belas-artes, ulisboa; 2024