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Milo Rau coloca em cena crianças a representar adultos para nos contar e lembrar sobre a demência humana, por factos e baseado em factos reais, duros e crus, a história aos pedaços da ação pedófila do belga Marc Dutroux e suas consequências.

Impossível ficar indiferente, em 1995, aquando apanharam este homem e seus horrores, tinha sensivelmente a idade das crianças em palco, 12 anos. Recordo-me de ter medo e fingir que aquilo não existia.

Às vezes a violência pode estar perto de cada um de nós, ser vizinha, ou até morar debaixo do mesmo teto… Muitas vezes, o que normatizamos como certo ou inofensivo e banal por displicência, pode mesmo violar o próximo.

Em “five easy pieces” crianças tornam presente episódios sobre o caso Marc Dutrou. A forma profissional como o fazem é irrepreensível, simples e generosa, de tal forma que envergonha muito pseudo ator e artista português, adulto.

Não há pretensão, menos é mais, para que o que se está a revelar comunique, e neste caso perturbe.

Todo o mise en scene faz sentido, é articulado, necessário e não invade ou distrai do que aquelas crianças nos estão a denunciar, mesmo as suas hesitações, silêncios, pausas ou ligeiras garotices durante e entre capítulos.

Começa com a recriação da audição para conhecer os escolhidos a representar este objeto teatral, cujo de fácil as cinco partes não têm nada, descontando prólogo e epílogo, que constam como lugar para recuperar a respiração. Elle Liza, de 12 anos, gosta da Rihanna mas canta “Imagine” de John Lennon.

No fim, o único adulto entre as crianças, que interpreta o encenador, pergunta se eles gostaram de fazer o espetáculo e se mudariam algo? Entre as respostas ouve-se uma menina de 8 anos dizer: “Eu mudava muitas coisas, mas como isto aconteceu de verdade não dá para mudar nada.”

Silêncio ou Grito abafado pelo orgulho de não se manifestar frágil. Sai-se perturbado, esclarecido e inspirado.

 

«FIVE EASY PIECES» | Teatro Maria Matos (Lisboa) | 16 a 17 de Setembro, 2017 | Conceção, Texto e Direção: MILO RAU | Dramaturgia: STEFAN BLÄSKE | Texto e Interpretação: RACHEL DEDAIN, MAURICE LEERMAN, PEPIJN LOOBUYCK, WILLEM LOOBUYCK, POLLY PERSYN, PETER SEYNAEVE, ELLE LIZA TAYOU e WINNE VANACKER | Assistência Direção de Atores: PETER SEYNAEVE | Investigação: MIRJAM KNAPP e DRIES DOUIBI | Cenário e Adereços: ANTON LUKAS | Vídeo e Som: SAM VERHAERT | Cenografia: IAN KESTE-LEYN | Tradução: GREGORY BALL | Fotografia PHILE DEPREZ | Produção Executivo: CAMPO | Produção: CAMPO e IIPM – International Institute of Political Murder